segunda-feira, 26 de novembro de 2012

tirando a roupa da naftalina

Todo dia pela manhã, 
costumávamos caçar tatu na serra de Parobé. 
As manhãs eram derretidas e nítidas,
 para ser honesto, tudo que me lembro, era poder correr.
Corria até todos limites estabelecidos da infância, 
muito antes do desespero de construir uma existência.
 Só hoje percebo que já estava a construí-la. 

Não tive filhos,
vivi tão plenamente quanto um moribundo
 executa suas últimas semanas. 
Só que no limite da minha cama
 não havia sobrinhos, 
primos nem parentes. 
No dia em que morri, 
não havia um silêncio de domingo, 
muito menos, um chuvisqueiro constante. 
A festa era recíproca, 
na dança as cotoveladas
eram recebidas em afagos, 
eu morri no carnaval.

Ser pontual na sepultura, toda geração espera.
Com que arte eu faço? Eis que aqui cheguei.
Na vantagem do método, sem gravata,
entre o vermelho dos cravos.
Esse olhar vazio,
revela-me o passado
e foda-se os jardins.

Sublime idiota!
Não vês?
O vazio de todas coisas, 
 assim como a miséria inerente à vida 
enche o mundo!

Não importa o minuto que passa,
não haverá outra lei!
Minha inocência é querer viver.
Sobe e olha, agora!
Dê um passo atrás,
sê verossímil na vida.
Os realistas, não chegam
nem a um metro.

Abro as grades da morte e abstenho. 
o vento forte faz com que as roupas
 dancem em uma festa mórbida. 
assobios entoando músicas clássicas
 fazem com que eu perceba,
 não mais que de repente,

um vazio.

 muito semelhante à perda 
de todos os amores de uma vida;
 mais revelador do que as dores 
de qualquer filósofo.
 dancei com a memória 
de tudo que poderia ter vivido, 
o inesperado réquiem mal afinado,
 me causou tamanha fadiga e desencanto, 
que só restou-me fechar a porta.

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